1 As sete cartas às igrejas
1 Escreve ao anjo da igreja que está em Éfeso: Isto diz aquele que tem na sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro:
Os capítulos 2 e 3 são extremamente notáveis. Por isso quero primeiro fazer algumas observações introdutórias antes de olharmos o texto em si. Nestes dois capítulos sete igrejas são abordadas quanto ao seu estado espiritual atual. É, porém, evidente que o significado vai além da situação daquela época. Também é claro que você pode tirar ensinamentos do estado espiritual das igrejas de então para os nossos dias de hoje. Mas estes dois capítulos mostram também nas sete igrejas sete fases sucessivas da história da igreja, desde o surgimento da igreja até o seu arrebatamento. Eles contêm um esboço profético da história da cristandade, pois o livro inteiro, incluindo estes dois capítulos, é profecia (Apo 1:3).
Aqui você lê a história da igreja, como ela se desenrolou e se desenvolveu na terra através dos séculos. Trata-se, pois, da responsabilidade da igreja. Em outros lugares da Bíblia lê-se sobre a igreja, como Deus a formou e como Ele a vê. Neste caso falamos da igreja segundo o propósito de Deus, e nisso tudo é perfeito. Deste lado a igreja não nos é apresentada no livro do Apocalipse. Neste livro dos juízos a casa de Deus, a cristandade, é julgada em primeiro lugar (1Ped 4:17). Este juízo se mede por até que ponto ela correspondeu à sua missão de ser um testemunho (um “catiçal”) no mundo. Depois do juízo sobre a cristandade seguem ainda o juízo sobre Israel e o juízo sobre o mundo.
Resumindo, você pode reconhecer nas cartas sucessivas os seguintes períodos da história da igreja:
1. Éfeso (que significa “a Amável”) é o tempo que se seguiu imediatamente à morte dos apóstolos. Exteriormente naquela época muita coisa ainda estava em ordem, mas se tinha abandonado o primeiro amor.
2. O tempo de Esmirna (que significa “Amargura”) é o tempo da perseguição aos cristãos pelos romanos. Sob dez imperadores romanos houve dez dessas perseguições; possivelmente a tribulação de dez dias mencionada em (Apocalipse 2:10) aponta para isso.
3. O tempo de Pérgamo (que significa “Fortaleza”) vai do quarto ao sétimo século. Começa com a aceitação do cristianismo pelo imperador Constantino. O cristianismo tornou-se religião oficial do Estado. Agora era vantajoso ser cristão.
4. O tempo de Tiatira (que significa “Incenso” ou “Sacrifício”) abrange o período do sétimo ao décimo sexto século. Durante este tempo a igreja (romana) dominou o mundo na pessoa do papa, ao contrário de Pérgamo, onde a igreja buscava a proteção do mundo. Como igreja dominante a igreja romana (provisoriamente) cumpriu sua função, mas como instituição ela ainda existe e permanecerá até a vinda do Senhor.
5. No tempo de Sardes (que significa “Remanescente”) surge no décimo sexto século, de dentro e ao lado da igreja romana, o protestantismo. Também as igrejas protestantes permanecem até a vinda do Senhor.
6. Durante o tempo do protestantismo, cujo traço é uma confissão sem vida, surge no décimo nono século o tempo de Filadélfia (que significa “Amor fraternal”). A graça de Deus produz no protestantismo morto um movimento de avivamento fiel à Bíblia, que se separa do protestantismo. Assim como o catolicismo romano e o protestantismo, também Filadélfia permanece até a vinda do Senhor.
7. A última fase da história da igreja é caracterizada por Laodicéia (que significa “Domínio do povo”). Ela tem sua origem também no décimo nono século. A característica de Laodicéia é a mornidão. Tem-se a alta confissão de Filadélfia, mas o Senhor está do lado de fora. Encontramos este estado espiritual em vários tipos de igrejas e correntes que surgiram dos avivamentos de Filadélfia. Mas hoje lá a situação espiritual muitas vezes é ainda pior do que em Sardes. Também Laodicéia permanece até a vinda do Senhor.
Para concluir estas observações introdutórias sobre os capítulos 2 e 3, quero ainda apontar brevemente a estrutura das cartas, que em todas é bem parecida:
1. A ordem: “Escreve...”
2. Uma característica de Cristo: “Isto diz Aquele que...”, e então segue uma característica da descrição do Senhor Jesus no capítulo 1.
3. A avaliação: “Conheço...”
4. A condenação (exceto em Esmirna e Filadélfia): “Tenho, porém, contra ti...”
5. A advertência (ameaça ou incentivo): “Arrepende-te...”
6. O chamado: “Quem tem ouvidos...”
7. A promessa: “Ao que vencer...”É notável ainda que nas últimas quatro cartas primeiro é dada a promessa e só depois segue o chamado.
V1. A primeira carta diz respeito à igreja em Éfeso. Esta igreja teve um papel grande e característico na história da igreja primitiva:
1. Paulo trabalhou ali por pouco mais de três anos durante sua terceira viagem missionária (Atos 20:31).
2. O seu importante discurso de despedida ele o dirigiu aos anciãos de Éfeso e ali advertiu quanto ao declínio que viria.
3. A carta que ele lhes escreveu contém as mais altas verdades cristãs (a carta aos Efésios).
4. Depois de Paulo também Timóteo trabalhou ali
5. Agora o próprio Senhor se dirige à igreja em Éfeso – como a primeira das sete igrejas.
A ordem a João não é escrever à igreja em Éfeso, mas sim ao anjo da igreja. Como já foi mencionado, anjo significa “mensageiro” ou “representante”. Pensar aqui num anjo literal cria mais problemas do que soluções. Assim, em nenhum lugar há um exemplo de um anjo que não cumprisse o seu dever, e menos ainda de um anjo ser chamado ao arrependimento. Com o anjo se referem a pessoas que são responsáveis pelo estado da igreja. Você pode pensar em pessoas como os anciãos, que numa igreja têm uma responsabilidade especial. Mas isso não significa que os outros não tenham responsabilidade. Todo aquele que pertence a uma igreja local é também responsável por ela permanecer fiel à Palavra de Deus e por a verdade ser testemunhada com fidelidade. Você pode comparar isso com o povo de Israel e com o rei que reinava sobre eles. Deus tornava o rei responsável pelo estado do povo, mas com isso não diminuía a culpa do povo.
O Senhor Jesus apresenta-Se aqui como “Aquele que tem as sete estrelas na sua mão direita”. Todas as estrelas estão na Sua mão. Ele as “segura” ou “tem” na Sua mão (cf. Apo 1:16) e as carrega na Sua mão (Apo 1:20). Isso aponta para poder e autoridade, para proteção e apoio. Ele quer guardá-las da destruição completa, mas também exercer controle sobre elas. Esta autoridade Ele exerce em todas as igrejas locais e examina se à sua autoridade corresponde-se da maneira correta. Por isso Ele anda no meio dos sete candeeiros de ouro. Ele faz, por assim dizer, a ronda, para ver se de fato brilham intensamente e espalham a luz que Ele acendeu.
Leia novamente Apocalipse 2:1.
Pergunta ou tarefa: Decore a ordem das sete cartas e tente associar-lhes os períodos sucessivos da história da igreja.
2 - 7 O primeiro amor
2 Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos e o não são e tu os achaste mentirosos; 3 e sofreste e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome e não te cansaste. 4 Tenho, porém, contra ti que deixaste a tua primeira caridade. 5 Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres. 6 Tens, porém, isto: que aborreces as obras dos nicolaítas, as quais eu também aborreço. 7 Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida que está no meio do paraíso de Deus.
V2. O Senhor Jesus começa com as palavras: “Eu sei “. Ele pode dizer isso porque é o Deus onisciente. É um grande privilégio que Ele saiba tudo sobre você (Heb 4:12; Amós 4:13). Significa que Ele o conhece por completo. Ele participa de tudo o que você vive, sabe tudo o que você pensa e sente, conhece todos os seus planos (Slm 139:1-4). Se esse conhecimento o inquieta, talvez haja algo na sua vida que você não quer deixar que Ele participe. Então diga isso a Ele.
Na igreja em Éfeso havia muita coisa boa. O Senhor menciona isso primeiro. Ele sempre procura primeiro o que é bom. Quando Paulo escrevia uma carta a uma igreja, geralmente mencionava primeiro o que era digno de louvor, antes de falar das coisas que não estavam boas. O Senhor diz que conhece as obras, o trabalho árduo e a perseverança da igreja de Éfeso. Ele viu que faziam boas obras, que davam realmente o seu melhor (com “trabalho” aqui se refere provavelmente a trabalho esforçado) e que também mostravam perseverança. Isso é um belo reconhecimento.
Porém, faltava algo. Você percebe isso quando lê o que Paulo podia dizer dos tessalonicenses. Deles ele podia falar das suas obras de fé, do esforço do amor e da perseverança da esperança (1Tes 1:3). Chama, portanto, a atenção que aqui em Éfeso o agir deles não procedia das verdadeiras características cristãs: fé, esperança e amor. O coração não estava mais envolvido.
Mas o Senhor menciona ainda as coisas boas que via neles. Eles também não podiam suportar os maus. Você vê aqui uma característica importante de uma igreja. O mal pode até manifestar-se ali, mas não pode permanecer ali. Para todo cristão sincero ficará claro que a santidade do Senhor não é compatível com aceitar pessoas más, como se fossem cristãs. Pessoas más são pessoas que não querem romper com o pecado, seja na prática ou na doutrina. Essas pessoas sempre existiram, e ainda existem. Quando aparecerem desconhecidos, eles devem ser examinados.
No início muitos falsos apóstolos tentaram destruir a igreja com mentiras. Mas os efésios não recebiam assim sem mais qualquer um que se apresentasse como apóstolo. Vigilantes como eram, provavam os espíritos dos que não conheciam (1Joã 4:1). Eles os provavam pela Escritura. Esse é também hoje o padrão de prova para toda confissão, que deve ser usado.
V3. O Senhor podia louvar ainda mais. A igreja não só tinha começado bem, os crentes também demonstravam perseverança. Perseverança é importante se você quer crescer na fé. Você enfrenta resistência. Você precisa aprender a suportá-la. Trata-se de resistência por causa do nome do Senhor Jesus. Assim que você se posicionar publicamente pelo Seu nome, você perceberá isso. Os efésios, além disso, não tinham se cansado: eles não pensavam em abandonar o cristianismo, pois não consideravam pesada demais a luta contra os maus ou a resistência por causa do Seu nome.
V4. Se a descrição tivesse terminado aqui, poder-se-ia dizer que a igreja em Éfeso era uma igreja perfeita, exceto por um detalhe. Qual igreja hoje poderia se comparar com ela? Mas o “detalhe” que não é mencionado no (verso 2) mostra que faltava algo muito importante, e é nisso que o Senhor aponta quando tem de dizer: “Tenho, porém, contra ti...”, e isso é: “... que abandonaste o teu primeiro amor”. Depois de tudo o que Ele menciona de positivo, também isso precisa ser dito. Em todas as atividades visíveis exteriormente e também dignas de reconhecimento, faltava interiormente algo. O Senhor tem isso contra eles. É apenas uma coisa, mas ela determina o verdadeiro valor de todas as atividades exteriores. Por isso o contraste com o que veio antes é tão grande.
Abandonar o primeiro amor é a causa de todo o mal na igreja, como mostram as igrejas seguintes. Pode haver muitas atividades na igreja, mas se o coração não está envolvido, falta-lhes o seu verdadeiro valor. Uma mulher pode agir para o marido ou um homem para a esposa por obrigação e até fazer isso de uma maneira que não tem nada a censurar. Mas se não passa de obrigação e falta o amor do coração, que existia no início, o outro vai perceber. Ele ou ela não ficará satisfeito com o que é feito por ele ou por ela. O Senhor sempre se lembra do primeiro amor e também lembra os Seus disso (Jer 2:2).
Os efésios não tinham perdido o primeiro amor, mas o tinham abandonado. Isso tem a ver com atividade. O Senhor Jesus não suporta que se crie uma distância entre os Seus e Ele. O amor só pode ser satisfeito com amor. Ele deseja o seu amor, e deseja o seu primeiro amor. O primeiro amor é o melhor ou o mais elevado amor. Ele indica a qualidade desse amor. É um amor que só está interessado na pessoa do Amado e para o qual todo o resto é secundário. Obras são boas, sim, são necessárias, mas só têm valor quando são feitas por amor a Ele.
V5. O Senhor chama em Sua graça ao arrependimento. Arrependimento começa com uma lembrança do início do desvio, como era antes desse tempo (cf. Luc 15:17). Se você se desviou do Senhor, você sempre deve voltar ao momento em que o desvio começou e confessar isso. Os efésios tinham caído da elevada posição que tinham conhecido e desfrutado pela carta que Paulo lhes escreveu.
O arrependimento deles se mostraria em que praticassem as primeiras obras. São obras motivadas pelo primeiro amor. Sem o primeiro amor não se pode falar de primeiras obras. Só quando o coração de uma igreja volta a bater por Cristo, ela pode ser um testemunho genuíno, um portador de luz. Se uma igreja não dá a Cristo esse lugar, Ele tem de vir como Juiz e intervir. Ele então removerá o candeeiro do seu lugar. Isso significa que uma igreja deixa de ser um portador de luz. Ela teve luz um dia, mas agora a perdeu. Assim como hoje a escuridão do Islã cerca os lugares onde estiveram as sete igrejas, assim também a remoção e a escuridão ameaçam as igrejas no Ocidente. Se elas não permanecerem na bondade de Deus, também serão cortadas (Rom 11:22).
V6. O Senhor Jesus sempre louva o que é digno de louvor, mesmo depois de ter ameaçado remover o catiçal. O que está aqui, Ele não esqueceu, mas Ele quer mencionar isso agora especialmente e assim dar ênfase. Trata-se do ódio a um tipo especial de mal, algo que tanto o Senhor como a igreja odeiam. Não as pessoas, mas as obras são odiadas. Nicolaitas significa “vencedores do povo” (ou: “dos leigos”). Isso pode indicar que aqui se encontra o clericalismo (exercício de poder pelo clero).
Você vê esta doutrina onde homens são contratados por homens para uma atividade espiritual, são pagos por isso e se lhes dá autoridade para mandar (cf. Atos 20:28; 1Tim 6:5; 1Ped 5:3), porque senão a igreja não poderia funcionar e haveria desordem. Isso é uma negação do fato de que a igreja tem apenas uma Cabeça e que todos os crentes são irmãos (Mat 23:8). O Senhor odeia esta doutrina e prática, porque com isso aqueles que Ele comprou por alto preço são transformados em leigos, em “malditos” que não conhecem a lei (Joã 7:49). Eles são mantidos na ignorância, dependentes do clero, que determina como a Bíblia deve ser lida.
V7. O Senhor fala à igreja como um todo, mas nela Ele fala ao indivíduo pessoalmente. Trata-se de você ouvir pessoalmente o que o Espírito diz às igrejas (plural). Também o que é dito às outras igrejas você deve levar a sério. Observe: trata-se do que o Espírito diz, não do que a igreja ou denominação ensina, junto com a exigência de que cada membro se submeta às decisões da igreja. Cada membro da igreja é chamado a reconhecer o que é do Espírito.
O Senhor termina com uma promessa para o vencedor. Vencer em cada igreja tem a ver com vencer o mal que é encontrado na respectiva igreja. Aqui o vencer consiste em manter ou em voltar ao primeiro amor, e isso no contexto de ter abandonado o primeiro amor. A recompensa consiste em que o próprio Senhor lhe dará de comer de Si mesmo (Ele é a árvore da vida). Esta bênção está preparada para todo crente, mas aqui é prometida como um consolo especial para aqueles que na terra guardaram o primeiro amor; esses são os que venceram.
Se você quiser perseverar no primeiro amor, será uma promessa muito preciosa para você que um dia se alimentará dEle para sempre e sem perturbação. Isso acontecerá no “Paraíso de Deus”. Paraíso significa jardim de deleite (Nee 2:8; Ecl 2:5; Cân 4:13; cf. Luc 23:43; 2Cor 12:4). É um paraíso cuja alegria e deleite nunca mais se perderão por causa da infidelidade do homem. O vencedor está na glória da ressurreição e desfruta de maneira perfeita a porção que escolheu na terra. Isso também é importante para você?
Leia novamente Apocalipse 2:2-7.
Pergunta ou tarefa: Como está o seu primeiro amor pelo Senhor Jesus?
8 - 11 Sê fiel até à morte
8 E ao anjo da igreja que está em Esmirna escreve: Isto diz o Primeiro e o Último, que foi morto e reviveu: 9 Eu sei as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus e não o são, mas são a sinagoga de Satanás. 10 Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. 11 Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: O que vencer não receberá o dano da segunda morte.
V8. João recebe a ordem de escrever uma segunda carta. Ele deve dirigi-la ao anjo da igreja em Esmirna. Nesta carta não há nenhuma única censura (assim como na carta a Filadélfia). É uma carta cheia de consolo. Este consolo era necessário, porque a igreja em Esmirna estava sofrendo tribulação, pobreza e blasfêmia. Cada uma dessas provações por si só já significa sofrimento. Agora eles estavam sofrendo sob três provações. Então o consolo é muito bem-vindo.
O consolo vem do próprio Senhor Jesus, que se apresenta a esta igreja provada como “o Primeiro e o Último, que esteve morto e reviveu”. Você vê, portanto, que Ele também aqui se apresenta em conformidade com o estado da igreja. O que Ele diz aqui de Si mesmo são novamente características que você viu nEle no capítulo anterior (Apo 1:8,17). Ele se mostra aqui como Aquele que governa o tempo e a eternidade, que tem tudo nas mãos, até mesmo a morte. A morte não tem poder sobre Ele. Ele venceu a morte, porque ressuscitou dentre os mortos. Ele é soberano, mesmo na maior tribulação. Isso é um grande consolo para os que têm a morte diante dos olhos.
O fato de esta carta seguir imediatamente à da igreja em Éfeso contém uma lição importante. Na carta à igreja em Éfeso você viu que o Senhor teve de repreendê-la porque tinham abandonado o primeiro amor. Na carta a Esmirna você lê de várias provações. Nisso você pode reconhecer o amor do Senhor, que por meio de provações quer fazer com que o Seu povo volte a Ele de todo o coração. Ele gostaria de ter de novo o primeiro amor deles. Ele quer ser de novo o Único a quem eles se inclinam.
Assim também pode ser na sua vida pessoal. Se você se afasta do Senhor, se Ele já não significa tudo para você, Ele não vai te largar. Ele vai fazer com que, por meio de certos acontecimentos (às vezes desagradáveis), você volte a buscá-Lo. Pois você só é feliz quando vive em comunhão com Ele e lhe entrega toda a sua vida. Ele tem direito à sua vida, mas também é um privilégio poder viver para Ele, e com isso está ligado também a maior felicidade possível.
V9. Quando há tribulação, pobreza e blasfêmia na vida de uma igreja, Ele sabe disso. Ele sente isso. Não é que Ele permite essas coisas e depois assiste de braços cruzados, não, elas O afetam. Em certo sentido Ele até as dirige. Você vê isso em Jó. Ali Satanás se apresenta diante de Deus, e Deus chama a atenção de Satanás para Jó. Então Satanás desafia Deus, por assim dizer, propondo-Lhe que prove Jó. Deus permite isso. Deus está, portanto, por trás e acima das provações que vêm sobre Jó. Assim também Jó vê isso, quando diz: “O SENHOR deu, e o SENHOR tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1:21). Jó, pois, não culpa Satanás, mas recebe tudo da mão do SENHOR (Apo 2:10).
Depois de todas as tentativas vãs de Satanás de levar Jó a pecar, Satanás ficou sem argumentos, mas Deus ainda não tinha alcançado o Seu objetivo com Jó. Deus usou a maldade de Satanás para levar Jó ao ponto onde Ele podia abençoá-lo. Jó precisava tomar consciência de quão mau era o seu coração. Essa consciência começa a crescer nas conversas que Jó e seus amigos têm a partir do capítulo 3. Por fim Jó chega ao clamor: “Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te vêem os meus olhos. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5,6). Agora Jó chegou ao ponto onde Deus o queria, e Ele o cobre de bênçãos, maiores do que ele tinha antes. Assim é o agir de Deus, “sempre bendito, mesmo quando nos parece duro”.
A consciência de que o que te acontece vem da mão do teu Pai, que te ama, te dá força para suportar. A fé sabe e se apega a isso: “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que vos não deixará tentar acima do que podeis; antes, com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1Cor 10:13).
Além de o Senhor Jesus saber de todas as provações e de Deus ter com elas as suas intenções sábias e amorosas, o próprio Senhor Jesus também passou por tudo. Aquele que isto diz, fala por experiência. Isso também é um grande consolo para os que sofrem e passam necessidade em tudo. Era para eles uma honra especial ser tão próximos e tão semelhantes a Ele. Isso também pode acontecer com você, se você sofre por causa do Seu nome (Luc 6:22,23; Atos 5:41; Flp 3:10,11).
A tribulação também trazia pobreza. Faltavam-lhes alimentos. O Senhor sabia disso. Ele os consola com a indicação da sua riqueza espiritual. Você pode ganhar o mundo inteiro, mas de que te adianta, se a sua alma sofre dano? Mas você pode, no meio da maior pobreza, ter a maior paz e a maior alegria na sua alma, se pensar que Cristo e tudo nEle te pertencem. O que você possui em Cristo, pertence-lhe para a eternidade. Esses tesouros estão no céu e são inacessíveis para as pessoas que podem te roubar tudo na terra ou te negar alimentos.
Uma provação especialmente dolorosa era a blasfêmia de pessoas que fingiam pertencer ao povo de Deus. Assim como em Éfeso (verso 2), também aqui havia os que reivindicavam para si ter verdadeiro discernimento e conhecimento e que se sentiam superiores aos outros. Eles reivindicavam para si ser o verdadeiro povo de Deus, e excluíam outros. Você encontra essa pretensão durante toda a história da cristandade. Você também tem a ver com isso agora. Sobretudo os cristãos só de nome tornam muito difícil para os verdadeiros cristãos permanecer fiéis à Palavra de Deus. Seja quanto à igreja ou quanto a formas de convivência, assim que você deixa a Palavra de Deus falar, você atrai para si a blasfêmia dos cristãos só de nome. Essas pessoas não deixam que a Palavra de Deus lhes diga nada, mas são porta-vozes de Satanás. Não se deixe enganar por elas, mas permaneça fiel à Bíblia.
V10. Os crentes são encorajados com as palavras “Nada temas do que hás de padecer” a enfrentar o futuro sem medo, mesmo que o futuro certamente traga sofrimento. Eles são consoladoramente preparados para os sofrimentos. Tribulação, pobreza e blasfêmias já eram ruins o bastante, mas viriam coisas ainda piores. Não haveria apenas perseguição, mas também prisão. Acabou-se a liberdade, Satanás recebe poder para determinar o que acontece com os crentes presos. Isso pode significar a morte.
Mas o Senhor tem o Seu próprio objetivo com isso. A provação serve para o refinamento da fé e para a purificação da vida (1Ped 1:6,7); não serve para fazer o crente cair. E é Ele quem determina a medida da angústia, fixa a sua duração (cf. Dan 1:12). A tribulação durará dez dias e nem um dia a mais. Assim também Deus determinou os dias da grande tribulação no fim dos tempos para três anos e meio, um período que não será ultrapassado (Mat 24:21,22; Apo 11:2,3).
Em sentido profético, o período de dez dias é significativo. Tem a ver com o período da história da igreja que carrega a característica de Esmirna, a saber, o segundo e o terceiro século da nossa era. Durante esse tempo aconteceram dez grandes perseguições. A aplicação profética significa, então, que a tribulação de dez dias aponta para dez tempos especiais em que os crentes foram oprimidos pelos governantes romanos.
O Senhor encoraja a sua igreja provada em Esmirna a permanecer fiel até à morte. Não foi também Ele fiel? Também lhes coloca diante dos olhos, para encorajamento, uma recompensa: a coroa da vida, que Ele mesmo lhes dará. Além da morte o inimigo nada pode fazer (Mat 10:28). Até esse momento o crente é encorajado a permanecer fiel. Depois vem a ressurreição, o mundo do Ressuscitado. Para isso o seu olho deve estar voltado.
V11. Embora a totalidade seja abordada, a responsabilidade pessoal é enfatizada muito. Trata-se de saber se você tem ouvidos para ouvir o que o Espírito diz às igrejas. Se você entendeu a mensagem ao anjo em Esmirna e quiser dar ouvidos a ela, você é um vencedor. Você não se deixa derrubar pelas provações, mas permanece fiel, apesar de toda resistência, Àquele que te comprou com o Seu sangue.
A recompensa pela fidelidade até o extremo consiste em que você não será atingido pela segunda morte. A palavra “não” é uma expressão forte que significa “de maneira nenhuma”. Também esta promessa é a porção de todo crente, mas aqui também é um grande encorajamento justamente para os crentes que estão em tribulação e têm a morte diante dos olhos. O inimigo tem poder (isto é, lhe é permitido) fazê-los passar pela primeira morte (Mat 10:28). Mas eles podem saber que a segunda morte (que é o inferno, o lago de fogo; Apo 20:14) foi vencida para eles e não tem mais nenhum poder sobre eles.
Leia novamente Apocalipse 2:8-11.
Pergunta ou tarefa: De que maneira você tem a ver com tribulação, pobreza e blasfêmias?
12 - 17 Onde está o trono de Satanás
12 E ao anjo da igreja que está em Pérgamo escreve: Isto diz aquele que tem a espada aguda de dois fios: 13 Eu sei as tuas obras, e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás; e reténs o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. 14 Mas umas poucas coisas tenho contra ti, porque tens lá os que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se prostituíssem. 15 Assim, tens também os que seguem a doutrina dos nicolaítas, o que eu aborreço. 16 Arrepende-te, pois; quando não, em breve virei a ti e contra eles batalharei com a espada da minha boca. 17 Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe.
V12. Na história da igreja começa uma nova época. Este tempo é apresentado na igreja em Pérgamo. Em Esmirna você viu o tempo das perseguições aos cristãos. Depois desse tempo começa na história da igreja um tempo de descanso, que se inicia no ano 313. Neste ano o imperador Constantino, o Grande, converte-se exteriormente ao cristianismo e torna o cristianismo religião oficial do Estado. Agora é vantajoso tornar-se cristão, porque com isso se consegue dinheiro e prestígio.
Satanás muda agora sua tática. Em Esmirna ele usou os governantes pagãos para perseguir. Ali ele se manifestou como leão que ruge 1Ped 5:8. Suas tentativas de exterminar o cristianismo, porém, não tiveram sucesso. Em Pérgamo ele se torna o protetor do cristianismo e toma a aparência de anjo de luz (2Cor 11:14). Ele fez com que a igreja se sentisse em casa no mundo e se preparasse para uma permanência agradável nele.
Mas há Alguém que penetra esta astúcia. É Aquele que “tem a espada aguda de dois gumes”, a Palavra de Deus (Heb 4:12). Só por meio da Palavra de Deus você recebe discernimento para as ciladas de Satanás. Se Satanás não pode te atingir com golpes e provações, ele vai tentar te seduzir com luxo e vida fácil para você ser infiel à sua vocação. Ele vai fazer de tudo para que você esqueça: Eu estou ligado com Cristo no céu, que foi rejeitado na terra. Mas se você lê a Palavra de Deus e tem o desejo de viver de acordo com ela, você permanecerá fiel à vocação celestial.
V13. O Senhor começa dizendo que sabe onde a igreja mora: ali onde está o trono de Satanás. Não é de censurar que você esteja onde está o trono de Satanás. Você não pode escapar disso. Mas é sim de censurar morar ali. Morar significa sentir-se em casa em algum lugar, não apenas estar ali, mas dirigir todos os seus interesses para isso e estar ligado a isso. Mas como pode a igreja sentir-se em casa onde Satanás tem o seu trono, onde ele governa? Satanás é o príncipe do mundo (Joã 14:30). Ele dirige o mundo e o torna submisso a ele. A igreja foi tirada do mundo (Gál 1:4), para que ela fosse uma com a sua Cabeça glorificada no céu (Efé 4:15,16). Não é o propósito de Deus que os cristãos se estabeleçam no mundo e se sintam em casa ali. Pela astúcia de Satanás a igreja, porém, não se apegou à sua Cabeça, mas recebeu uma orientação terrena (Flp 3:19).
O Senhor observa também que a igreja em Pérgamo se apegava às verdades fundamentais cristãs. Eles se apegaram ao nome de Cristo e não juraram em nome do imperador. Também não tinham abandonado a fé nEle, o Filho de Deus e o Filho do Homem, e na sua obra redentora. Eles não se abalaram pela inimizade que, apesar da sua ligação com o mundo, recebiam do mundo. Que o mundo, apesar da sua atitude tolerante para com um cristianismo mundano, não tinha mudado de verdade, eles puderam perceber pelo que aconteceu com Antipas.
Quem é fiel ao nome do Senhor sempre atrairá o ódio do mundo. O Senhor chama Antipas de sua testemunha fiel. Com isso Ele presta uma grande honra a esta testemunha. Antipas significa “contra todos”. Mesmo que a multidão se deixasse seduzir para um cristianismo confortável, ele nadava contra a corrente e testificava do seu Senhor. É notável que a palavra grega para testemunha é martys, que significa propriamente “mártir”. A voz de Antipas só pôde ser silenciada com a morte. Esse também foi o destino de testemunhas anteriores como o de João Batista (Mar 6:16-18), dos profetas (Mat 23:34) e sobretudo do Senhor Jesus (Apo 1:5). O que Cristo era para Deus, isso Antipas era para Cristo.
V14. Depois do louvor que o Senhor Jesus também tinha para esta igreja, Ele lhes aponta o que tem contra eles. Ele censura a sua atitude tolerante para com falsos mestres no meio deles. A falsa doutrina deles é chamada: a doutrina de Balaão. O que há de pernicioso nesta doutrina consiste em que de maneira astuta verdade é misturada com mentira e os filhos de Deus com o mundo. Balaão seduziu os israelitas a “comerem dos sacrifícios aos ídolos e a se prostituírem” (Núm 25:1,2; 31:16). Essa é a grande astúcia de Satanás, que também hoje é tão bem-sucedida. Você vê isso em todo lugar onde princípios mundanos são introduzidos na igreja. A doutrina de Balaão encontra entrada quando você vê a igreja como uma organização ou uma empresa. Para uma empresa funcionar bem, precisam ser criadas estruturas, distribuídas tarefas e criados grupos de trabalho. A igreja tem um produto que precisa ser anunciado e tornado atraente para que outros o adquiram. O grau de popularidade do grupo é importante. De qualquer forma a influência política é significativa.
Este desenvolvimento é encontrado desde Pérgamo durante toda a história da igreja. Tiago chama os seguidores e defensores de tal desenvolvimento de “adúlteros” (Tia 4:4). É prostituição espiritual quando a igreja se une ao mundo. Encontra-se na cristandade também, em sentido espiritual, o comer dos sacrifícios aos ídolos. Quando visitei uma igreja há algum tempo, chocou-me de novo ver como pessoas beijavam imagens de santos e se curvavam reverentemente diante delas. A veneração a Maria e ao papa é irremovível. Inúmeras pessoas se entregam a isso e comem dos sacrifícios aos ídolos. Maria e o papa foram consagrados pela igreja (romana) não a Cristo, mas ao diabo. A veneração que lhes é prestada é recebida por demônios.
V15. Na esteira da doutrina de Balaão está a doutrina dos nicolaítas. Também ela tinha encontrado entrada em Pérgamo, e também por isso o Senhor tem de censurá-los. O que em Éfeso ainda consistia apenas em obras e que eles também odiavam (verso 6), aqui foi elevado a doutrina. Como já observado no verso 6, nicolaítas significa “vencedores do povo” (ou: “o vencedor dos leigos”). Estes vencedores do povo se consideravam o clero e o povo como leigos. O fato de aqui se falar da “doutrina dos nicolaítas” mostra que a diferença entre clérigos e leigos tinha se tornado uma instituição. Você encontra esta diferença já nos nomes que os clérigos assumiram desde o terceiro século na cristandade. Naquela época, por exemplo, o bispo em Roma foi chamado pela primeira vez de “Papa”. Este mal se enraizou e se fixou profundamente na cristandade.
V16. Depois das acusações não segue o juízo, mas o chamado: “Arrepende-te, pois”. Isso só pode ser visto como uma prova da graça. O Senhor dá oportunidade de conversão antes de julgar. A igreja pode dar ouvidos ao chamado, rompendo as ligações com o mundo e removendo do seu meio os representantes das doutrinas corrompidas. Se isso não acontecer, Cristo virá e proferirá sentença sobre eles por meio da sua Palavra. O mal na igreja sempre deve ser julgado com base na Palavra. Se a igreja não o faz, Ele mesmo o fará. Você vê aqui, porém, uma diferença entre o anjo e os fiéis de um lado (virei a ti em breve) e os representantes das doutrinas erradas de outro (pelejarei contra eles). Há, portanto, dois grupos nesta igreja.
V17. Aqui este chamado ainda é feito antes da palavra ser dirigida aos vencedores. Isso significa que a totalidade é abordada, enquanto o que é dito deve ser colocado em prática por cada crente pessoalmente. Todo crente que dá ouvidos ao chamado é um vencedor. Um vencedor é aquele que não se deixa arrastar pelos perigos que ameaçam esta igreja. Tal pessoa é um verdadeiro estrangeiro, que não cai sob a influência do príncipe do mundo.
Para vencer numa situação em que a igreja se sente em casa no mundo e permitiu o pensamento do mundo no seu meio, é necessário que o crente viva no oculto, pela força da Palavra, com Deus. O maná fala do Filho de Deus, que se fez homem para nos dar a vida, e que se humilhou e entrou em todas as nossas circunstâncias. Deste pão se alimentam os poderosos, que são anjos (Slm 78:25). O maná estava ali toda manhã – e isso durante toda a jornada no deserto de 40 anos – para ser colhido no deserto. Assim Cristo deve ser o nosso alimento diário. Quando a igreja volta no coração para o mundo, ela se alimenta do alho e das cebolas do Egito (Núm 11:5). Você pode comparar isso com programas de entretenimento na TV e com revistas. Eles parecem apimentados e picantes, mas não têm valor nutritivo e têm cheiro ruim.
Vencedores são aqueles que, como Cristo, viveram separados do mundo. A eles Cristo mesmo promete o maná escondido. Eu penso que isso significa que Ele, que na sua vida na terra foi completamente separado para Deus, contará ao vencedor sobre o seu maravilhoso caminho na terra. A pedra branca fala de reconhecimento e estima. Na justiça significava absolvição. Numa eleição usava-se uma pedra branca para mostrar aprovação a uma pessoa. É isso que o Senhor Jesus fará ao vencedor em Pérgamo. Isso expressa a comunhão pessoal entre o Senhor Jesus e o vencedor. É o novo nome do crente, com o qual ele está registrado no céu (Isa 62:2; 65:15; Luc 10:20; Heb 12:23). No céu fazemos coisas juntos, mas há também uma relação com o Senhor Jesus que é totalmente pessoal, e uma alegria nEle da qual outros não participam.
Leia novamente Apocalipse 2:12-17.
Pergunta ou tarefa: Como está a sua separação do mundo?
18 - 29 A mulher Jezabel
18 E ao anjo da igreja de Tiatira escreve: Isto diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao latão reluzente: 19 Eu conheço as tuas obras, e a tua caridade, e o teu serviço, e a tua fé, e a tua paciência, e que as tuas últimas obras são mais do que as primeiras. 20 Mas tenho contra ti o tolerares que Jezabel, mulher que se diz profetisa, ensine e engane os meus servos, para que se prostituam e comam dos sacrifícios da idolatria. 21 E dei-lhe tempo para que se arrependesse da sua prostituição; e não se arrependeu. 22 Eis que a porei numa cama, e sobre os que adulteram com ela virá grande tribulação, se não se arrependerem das suas obras. 23 E ferirei de morte a seus filhos, e todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda as mentes e os corações. E darei a cada um de vós segundo as vossas obras. 24 Mas eu vos digo a vós e aos restantes que estão em Tiatira, a todos quantos não têm esta doutrina e não conheceram, como dizem, as profundezas de Satanás, que outra carga vos não porei. 25 Mas o que tendes, retende-o até que eu venha. 26 E ao que vencer e guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei poder sobre as nações, 27 e com vara de ferro as regerá; e serão quebradas como vasos de oleiro; como também recebi de meu Pai, 28 dar-lhe-ei a estrela da manhã. 29 Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas.
V18. Esta igreja mostra em sentido profético o tempo mais sombrio da história da igreja. Em Pérgamo a igreja estava sob a proteção do mundo. Em Tiatira a igreja domina sobre o mundo. Esse foi o tempo em que a igreja romana adquiriu e exerceu poder secular. Geralmente se aceita que este tempo começou no ano 590 com a eleição de Gregório, o Grande, como primeiro papa e durou até a Reforma no início do século 16. O papa teve durante este tempo um poder tão grande que nenhum rei ou príncipe podia resistir-lhe. Nesta igreja dominante você vê o que o Senhor Jesus chama no verso 20 de “a mulher Jezabel”.
O Senhor Jesus dirige-Se a Tiatira como o Filho de Deus. Como o Filho de Deus Ele é o fundamento da igreja (Mat 16:16-18). Isso está em claro contraste com o ensino da igreja romano-católica, que afirma que Pedro é a rocha e ao mesmo tempo o primeiro papa. Cada papa subsequente é visto como sucessor de Pedro. Como Filho de Deus o Senhor Jesus é também Filho sobre a sua casa Heb 3:6. Isso está em contraste com a mulher Jezabel, que se comporta como se a igreja fosse sua casa. Diante do mal da igreja romana o Filho de Deus apresenta-Se como “Aquele que tem os seus olhos como chama de fogo”. Isso indica o Seu discernimento divino, com a capacidade de julgar o mal. Ele julgará tudo o que está em contradição com a sua santidade, e isso em conformidade com a justiça perfeita e brilhante, como mostram “os seus pés semelhantes a bronze reluzente”. Os Seus olhos e pés você já viu no capítulo 1 (Apo 1:14-15).
V19. Embora o estado da igreja em Tiatira represente o ponto mais baixo da história da igreja, o Senhor vê também aqui coisas que pode louvar. É até tal ponto que o Seu louvor é mais abundante do que o louvor que Ele tem para outras igrejas. Isso se deve ao fato de que a fidelidade dos fiéis numa época tão sombria brilha tanto mais. Nos séculos sombrios da Idade Média encontra-se naqueles que amavam o Senhor Jesus de coração, com pouca luz, grande força de fé e dedicação. Exemplos disso são os valdenses e os albigenses, que resistiram às grosseiras falsas doutrinas da poderosa igreja de Roma.
O Senhor diz: “Conheço as tuas obras, e o teu amor, e a tua fé, e o teu serviço, e a tua perseverança”. Ele menciona cada aspecto do seu empenho e da sua dedicação individualmente. Ele tem um olho para cada detalhe da prova da sua fidelidade. Ele pode até dizer deles que as suas últimas obras são mais do que as primeiras. Em vez de ceder à pressão, Ele percebe um crescimento neles.
V20. Então Ele tem de lhes dizer o que tem contra eles: Eles toleram a mulher Jezabel, que se diz profetisa. Essa mulher é um símbolo do elemento estranho na Igreja, que não pertence a ela, assim como a Jezabel histórica não pertencia ao povo de Deus (1Rei 16:31), mas ali obteve influência. E ela se arrogava ser profetisa, isto é, apelava para falar palavras de Deus. Exatamente assim é o papado. O Senhor Jesus censura ao anjo por deixar a mulher agir. Isso é um grande pecado. É tolerar e ser indulgente com o que Deus odeia.
Jezabel ensina. É isso que a igreja romana faz; ela se arroga a autoridade para ensinar. O sistema eclesiástico, representado por uma mulher (cf. Zac 5:5-11), afirma possuir o verdadeiro ensino e não poder cometer erros doutrinários. Ela decide sobre a doutrina e a vida daqueles que se confessam a ela. Com a sua fala presunçosa e infalível (ex cathedra, que é a fala do papa de Roma em supremo poder de ensino) ela tenta seduzir os servos do Senhor e levá-los a uma ação apóstata. Vê-se aqui que a doutrina de Balaão, na qual alguns em Pérgamo insistiam (verso 14), é ensinada por esta mulher – a igreja na sua totalidade – e serve para enganar. O fermento de Pérgamo continua agindo em Tiatira.
V21. O Senhor teve muita paciência com ela. Por causa da longa paciência, a obstinação da sua maldade tornou-se ainda mais evidente. Aqui não há apenas cegueira e ignorância, mas uma vontade que age em rebelião contra Deus. Ela não quer arrepender-se da sua prostituição. Ela não quer romper com o mundo. O exercício do poder parece bom demais.
V22. Porque ela não quer arrepender-se, é anunciado o juízo que inevitavelmente a atingirá. A cama, símbolo da sua prostituição e do seu prazer, Deus a transforma em símbolo de doença e dores. Ao jogá-la numa cama, Deus a entrega, por assim dizer, aos seus caminhos corrompidos.
Mas o juízo de Deus não atinge apenas a igreja romana. Atinge também os que cometem adultério com ela. Isso diz respeito a todas as igrejas que junto com ela buscam o ecumenismo. Também várias igrejas protestantes gostariam de participar da sua influência na política secular e por isso tentam aproximar-se da igreja romana. A igreja romana as absorverá. O sistema eclesiástico que surge com isso será chamado “Babilônia, a grande”. Deus a julgará (Apo 17:1-18; 18:1-24). Para aqueles que se juntaram a ela, sem ainda serem contados como parte, parece ainda haver a possibilidade de se arrependerem das suas obras.
V23. Os filhos de Jezabel são incrédulos que pertencem a este sistema e são corresponsáveis. São pessoas que têm a mesma mentalidade; sua mãe espiritual é Jezabel. O Senhor os matará. Ele tirará toda vida.
Por meio deste juízo todas as outras igrejas – isto é, o restante da cristandade – reconhecerão que o juízo vem de Deus e que Ele age com conhecimento perfeito.Possivelmente estas outras igrejas estavam impressionadas com o seu ensino, mas pela morte que o Senhor trará sobre isso, elas reconhecerão quão corrompido era este ensino. O Senhor executará o juízo de acordo com a medida da responsabilidade que cada um dos que pertenciam a Tiatira tinha. Isso vale para o anjo, para Jezabel, para os seus filhos e para os que cometeram adultério com ela.
V24. Agora o Senhor dirige-Se a um remanescente em Tiatira. Como característica Ele menciona que eles não aceitaram a falsa doutrina da igreja romana e também não se envolveram com as profundezas de Satanás, isto é, com o ocultismo desta igreja. O Senhor não lhes impõe outra carga. Ele ainda não diz aqui que eles devem sair. Em Sardes Ele dará provavelmente esta oportunidade. No tempo do fim, em que vivemos agora, soa o chamado: “Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados e para que não incorras nas suas pragas” (Apo 18:4). Isso deixa claro que até a vinda do Senhor haverá fidelidade na igreja romana.
V25. O que os fiéis têm não é muito. No entanto o Senhor os chama a reterem o pouco até a Sua vinda. Tiatira ou o catolicismo romano permanecerão, portanto, até a vinda do Senhor. Isso está em contraste com as três igrejas anteriores, que tiveram o seu tempo na história profética e passaram. Tiatira não será substituída por Sardes, mas Sardes surgiria dela e se desenvolveria ao lado de Tiatira. É o protestantismo, que permanecerá ao lado do catolicismo romano.
V26. Também em Tiatira o Senhor tem uma promessa para os vencedores. Porém Ele não fala apenas de vencer, mas também de guardar as suas obras. As suas obras são as obras que Ele ordenou e que são feitas no Seu poder. Aqui, pois, se fala de um duplo requisito. Ele promete aos vencedores que participarão do Seu domínio sobre as nações. Tiatira tinha dominado, mas eles não tinham participado disso. Agora eles podem reinar com o Senhor. Aqueles que durante a ausência do Senhor Jesus se recusaram a dominar sobre o mundo, receberão dEle poder de governo no dia da Sua glória (cf. 1Cor 4:8-9).
V27. O vencedor reinará com vara de ferro, uma vara que não pode ser quebrada. O seu governo consiste em “apascentar” ou “guardar”, isto é, conduzir, preservar e proteger, e isso dos povos que entrarão no Reino de paz. O seu governo consiste também em despedaçar os gentios ímpios. O exercício deste juízo é atribuído ao Senhor Jesus no Salmo 2 Slm 2:9, mas aqui também é aplicado aos vencedores em Tiatira. Todo poder que o Senhor Jesus concede, Ele mesmo recebeu do Seu Pai (cf. Mat 11:27; 28:18; Joã 3:35; 5:22,27; 13:3).
V28. Como recompensa adicional o vencedor recebe a “estrela da manhã” das mãos do Senhor Jesus. A estrela da manhã é o próprio Senhor Jesus (Apo 22:16). Isso significa que Ele mesmo Se apresenta a eles de maneira especial para encorajamento como Aquele que vem para a sua igreja (2Ped 1:19). Antes de Ele nascer como o Sol da justiça (Mal 4:2), Ele nascerá como a estrela da manhã, para introduzir a sua igreja no céu. Entre eles estão também os fiéis de Tiatira. Eles não perecerão no juízo sobre Babilônia.
V29. A carta a Tiatira termina com um chamado a cada um que tem ouvidos para ouvir, a saber, para ouvir o que o Espírito diz às igrejas. Isso é neste caso especialmente significativo, porque está em total contraste com o que a igreja católica diz: Ouça o que a igreja diz.
Aqui esta exortação segue pela primeira vez depois da promessa para os vencedores. Nas vezes anteriores cada igreja foi exortada na sua totalidade. Agora esta exortação vale apenas para os vencedores. Eles ouvem o que o Espírito diz às igrejas. A cristandade já não pode arrepender-se na sua totalidade. O Espírito ainda fala às igrejas, mas da totalidade já não se espera que ouça, isso se espera apenas de um fiel remanescente.
Leia novamente Apocalipse 2:18-29.
Pergunta ou tarefa: Quais características da “mulher Jezabel” você reconhece na cristandade?